— Você não entende. — Soltou meus dedos, movendo os olhos para se fixarem na ponte, ao longe. Cruzou as mãos sobre o peito, aprisionando-se em seus próprios braços. Uma voz rouca e fraca saía-lhe do fundo da garganta. — Não é o Brasil. Gosto do Brasil. É tudo: são seis gerações de Betts, todos devotos e obedientes à Igreja. Construímos Utah, de Salt Lake a Cedar City; levamos o Evangelho ao Arizona e a Nevada. Nada disso teria acontecido se as gerações antes de mim fossem egoístas, desobedientes ao Deus em que acreditavam, aos pais e aos líderes da Igreja, por horríveis que fossem.
— Você não acredita nisso, Dennis!
— Não acredito, mas está dentro de mim.
— Aonde quer chegar?
— Não quero simplesmente fugir. Meu pai pode estar apenas de cabeça quente. Não quero partir sem dizer nada. Não acha que devo ao menos dar uma chance a toda essa gente? Dar uma chance ao meu pai de me aceitar? A última que seja. — disse, deixando cair os braços, encarando o rio — Além disso, ele está com meus documentos. Quero dar uma chance a que me entenda, me entregue o passaporte, os papéis do visto, quero que todo mundo fique em paz! — a afirmação veio forte, formal.
— Se falhar, — supliquei — a gente vai achar um jeito de ir embora sem documentos.
— Se falhar, a gente vê. — respondeu ainda sem me olhar, levantando-se e caminhando os poucos passos até a beira da água, permanecendo, outra vez, imóvel.
Fui ao seu encontro com um abraço pelas costas, juntando minhas mãos em volta da cintura dele e, de leve, beijando-lhe a nuca, acariciando-lhe a barriga, firme como uma pedra, coberta por uma pele macia e molhada de suor.
— Quero ficar com você para o resto da minha vida, Dennis. Lembra? Carrego a tatuagem que você fez em mim. Isso é para sempre. E você — o desconsolo me embargou a voz — carrega a minha por cima das suas marcas. Eu te amo! Se você for embora com sua família, vou ficar te esperando. Contando os dias. Para sempre.
(RESENHA)