Vídeos reais sobre assuntos tratados no livro. | Resenha “Interlúdio” é um livro muito diferente do que eu esperava. Um livro denso, que nos deixa pensando muito, com camadas e mais camadas de reflexão que se entrelaçam de um modo belíssimo! O preconceito, a hipocrisia e o fanatismo são os pontos principais desta obra, escrita por James McSill. Em uma época perturbadora da nossa história nacional, o militarismo vigente na década de 1970, somos apresentados ao jovem e espontâneo Lázaro, de 17 anos. Revezando seu tempo entre aulas e seu trabalho no Instituto Cultural Norte-Americano, ele recebe uma proposta um tanto inusitada: tomar conta de um jovem americano enquanto seu pai, um adido militar, viaja a trabalho pelo país. É desta forma que conhecemos a família mórmon Betts, formada porJohn, o odiável chefe da casa, Rebecca, sua submissa e controversa esposa, Dennis, o filho mais velho e um dos mocinhos da história, e Candy, a filhinha mais nova que é uma das coisas mais fofas do mundo. Os segredos que esta família carrega são absolutamente chocantes e movimentam uma história cheia de desencontros, onde o amor é a única motivação que faz Lázaro sobreviver à vida cotidiana conforme descobre que nada é que parece ser. Tratando de dois temas basicamente polêmicos e que agora estão mais do que em alta no nosso país, “Interlúdio” mostra o desenrolar do relacionamento de Dennis e Lázaro, amor mais do que proibido. O homossexualismo e sua relação com a religião são os motores do livro, mas a história não fica apenas nisso. Não se trata de um manifesto gay, de um símbolo de uma causa ou algo do gênero, mas sim a composição de um retrato de uma história de amor e desgraças que andam lado a lado por mais de 30 anos. Tentando passar mais tempo juntos e esconder seu romance com Dennis, Lázaro se converte ao mormonismo, e as dicotomias de sua vida se tornam ainda mais evidentes. Como conviver e acreditar em algo que lhe condena? Como manter calado tudo o que mais gostaria de gritar ao mundo? Os dois chegam até mesmo a morar juntos em um mesmo apartamento, mas nada é simples. Se atualmente ainda vivemos mergulhados no preconceito e na repreensão, imagine em 1978! Nunca tive grandes conhecimentos da religião mórmon, mas obviamente já conversei com alguns dos jovens missionários que viajam pelo mundo divulgando a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Mesmo com toda a minha compreensão sociológica, assumo que ela talvez um dos credos mais complexos e chocantes da cristandade moderna. O grande mérito da obra é não apontar falhas na instituição “religião” – ela não cai no vicioso jogo de acusação do todo, mas destaca que cada pessoa é uma pessoa e reage de modo próprio diante de certas circunstâncias. Uma das cenas mais tocantes do livro, na minha opinião, é quando Dennis traça uma palavra na pele de Lázaro – a delicadeza e beleza da cena são incríveis! Entre tantos desencontros e desgraças, entre ameaças e situações-limite, não há como não torcer pelo casal. Outras tantas passagens expressam a vilania humana, a alienação e o fanatismo – a história nos brinda com tudo de mais belo e vil ao mesmo tempo, como as figuras de Dona Edinéia, diarista da família Betts, Lécio, melhor amigo de Lázaro, e Potoka, cafetina da região. Estas figuras secundárias nos ajudam a formar um verdadeiro mural da diversidade do caráter humano, uma “Divina Comédia” brasileira que se desenvolve no contexto da ditadura militar, mas repercute até os dias de hoje sem grandes alterações. O estilo da escrita é ligeiro, quase como flashes fotográficos. Não há como não acompanhar a história sem esboçar reações como “Meu Deus, e agora?”, “O que vai acontecer?!” ou “Não acredito!”. É como assistir um filme se desenrolando diante de seus olhos – impossível não reagir. A linguagem simples e coloquial deixa a trama ainda mais próxima de nós, ainda mais com a alternância de narração entre a terceira e a primeira pessoa. Recomendo a leitura de “Interlúdio” com os olhos e a mente aberta: é uma leitura reflexiva, cativante e muitíssimo surpreendente.
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